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Tecnologia da Informação - 19/10/2004 - 03:00
Comunidade de software livre atrai mais e mais programadores no País
A face mais conhecida da comunidade de software livre do País é a do curitibano Marcelo Tosatti, de 21 anos, mantenedor do kernel, ou núcleo, da versão 2.4 do Linux, que trabalha como consultor da Cyclades. Como ele, existem dezenas de milhares de programadores brasileiros que colaboram na criação de programas de computador usados por pessoas, empresas e governos de todo o mundo. "Pela primeira vez o Brasil assume uma posição de liderança no mundo de tecnologia", afirmou Marcelo D'Elia Branco, articulador do Projeto Software Livre Brasil (www.softwarelivre.org).

De acordo com a E-Consulting, devem ser investidos US$ 7,3 bilhões no Brasil este ano em projetos de tecnologia da informação que envolvem o sistema operacional Linux, também chamado de GNU/Linux, que tem como símbolo o pingüim. Para 2005, a tendência é de crescimento. Os principais concorrentes dos produtos da Microsoft são livres, como o Linux. O software proprietário, como o produzido pela Microsoft, não pode ser modificado pelo usuário, não tem seu código-fonte (conjunto de linhas de programação) aberto e exige pagamento de licença de uso.

O Linux é resultado do esforço coletivo - e voluntário - de cerca de 350 mil pessoas ao redor do mundo. Ele está disponível em diferentes distribuições, que se diferenciam pelo instalador e por outros softwares agregados ao sistema operacional. Uma das distribuições de mais sucesso no país é o Kurumin, desenvolvido por Carlos Morimoto. O Kurumin não precisa ser instalado no computador do usuário, pois roda direto de um CD.

Morimoto não gosta de perguntas pessoais. "Prefiro não chamar a atenção", disse ele, por e-mail. E acrescentou, meio de brincadeira, meio a sério, ao ser perguntado se uma foto sua poderia ser publicada com a matéria: "Se você publicar minha foto no jornal eu te processo ;-)". Em sua página na comunidade virtual Orkut, ele aparece empunhando uma espada samurai, que parte do seu rosto. Além de desenvolver o Kurumin, Morimoto dá cursos de Linux em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

O Kurumin nasceu em 14 de janeiro de 2003, baseado nas distribuições internacionais Debian e Knoppix. Foi criado para o CD-ROM do Guia do Hardware (www.guiadohardware.net), site de Morimoto. O Kurumin serviu de base para outras distribuições do Linux, como o Kalango, desenvolvido por Leandro Soares dos Santos, de 17 anos. "Desenvolvo software livre há 1 ano", explicou Santos. "Dei início ao projeto porque as distribuições que testei não atendiam plenamente as minhas necessidades, sempre faltava algo."

Mulheres

A maior parte da comunidade brasileira de software livre é autodidata. É o caso da programadora Fernanda Weiden, de 22 anos, que trabalha no Linux Technology Center, da IBM, em Campinas. Ela começou a participar da comunidade de software livre em 1998, quando morava em Porto Alegre: "Conheci pessoas, via chat, que sabiam muito de Linux, e me interessei". Fernanda foi a primeira mulher no Brasil a receber a certificação da Red Hat, principal distribuição comercial do Linux no mundo, em 2002. "Nunca fiz cursos", contou Fernanda, que chegou a terminar um semestre da faculdade de Ciência da Computação, mas parou. "Aprendi tudo o que sei na internet." Em julho de 2003, Fernanda fundou o Projeto Software Livre Mulheres (mulheres.softwarelivre.org), que reúne cerca de 100 pessoas.

"Noventa e cinco por cento são mulheres", afirmou a especialista em Linux. "Algumas são da Argentina." Por que ela criou o grupo? "Sempre senti falta de amigas mulheres na comunidade", explicou Fernanda. A idéia surgiu quando participou de um projeto da organização feminista Sempreviva (www.sof.org.br). O namorado de Fernanda, Gustavo Noronha, é desenvolvedor da distribuição Debian do Linux e gerente de Tecnologia do Ministério das Cidades.

Enquanto distribuições como o Kurumin e o Kalango têm como alvo o computador de mesa, existem outras, como o Sacix, criado por pessoas do Governo Eletrônico da Prefeitura de São Paulo, para serem usadas em rede. O Sacix funciona em computadores sem disco rígido, que carregam os programas diretamente de um servidor. O Sacix é usado nos 120 telecentros da administração municipal.

Lucas de Souza Santos, de 21 anos, é um dos responsáveis pelo Sacix. Ele já trabalha com software livre há cinco anos. "Eu já gostava de computador", lembrou Lucas. "Um dia, meu pai me deu uma revista sobre Linux, e disse: ‘Estuda isto aqui, que um dia vai dominar o mundo’." Na Prefeitura desde janeiro, Lucas cursa o segundo ano de Ciência da Computação: "Meu pai teve uma visão muito boa do futuro". Mesmo trabalhando o dia inteiro e cursando a faculdade, ele ainda consegue contribuir com outros projetos de desenvolvimento nas horas vagas.

É comum isto acontecer entre os desenvolvedores de software livre. Mas não dá para dizer que não sobra tempo para a diversão. No começo do mês, Fernanda, da IBM, participou de uma festa dos anos 80 que contou a presença de vários integrantes da comunidade de software livre. O DJ foi Eduardo Maçan, que trabalha no Colégio Bandeirantes, em São Paulo, um dos desenvolvedores mais antigos e respeitados do País. O nome da festa? A Vingança dos Nerds, comédia juvenil clássica de 1984. Não dá para dizer que esse pessoal não tem senso de humor.

Renato Cruz
O Estado de S. Paulo
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