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Museu Goeldi - 20/06/2006 - 00:00
Pesquisa integra salvamento arqueológico e educação patrimonial no sudeste do Pará
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Pesquisadores em escavação no sítio Domingos
Foto: Divulgação Goeldi
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Desenvolvido por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), o Programa de Arqueologia Preventiva na Área de Mineração da Serra do Sossego, empreendimento da Companhia Vale do Rio Doce, já realizou o salvamento de quatro sítios arqueológicos em Canaã dos Carajás, município do sudeste do Pará. A datação do sítio mais antigo é de cerca de dois mil anos, e a do mais recente, em torno de 500 anos.
O conjunto dos vestígios materiais resgatados, que inclui mais de 30 mil fragmentos cerâmicos, indica que a região pesquisada foi habitada por grupos de horticultores vinculados à tradição ceramista Tupi-guarani, caracterizada por formas e decoração menos elaboradas que as sofisticadas Marajoara e Tapajônica, tradições mais conhecidas encontradas no Pará. "É uma ocupação recente, encontrada em todo o Brasil", revela a coordenadora do Programa, Edithe Pereira, arqueóloga do Museu Goeldi, instituição vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
Os estudos arqueológicos na região da Serra do Sossego começaram em 2000, por meio de um levantamento sobre o potencial arqueológico da área, que seria diretamente afetada pela exploração de cobre do Projeto Sossego. A pesquisa arqueológica concentrou-se no sítio Domingos, localizado em uma propriedade particular, à margem direita do rio Parauapebas.
Dos seis sítios descobertos pela pesquisa, apenas este, localizado próximo à Vila Bom Jesus, foi encontrado em bom estado de conservação. "O sudeste do Pará é uma região bastante alterada pela ação humana, principalmente pela agricultura e pecuária, o que contribui para a destruição dos sítios", afirma Edithe Pereira. Além disto, os sítios apresentam uma camada de ocupação pouco espessa (cerca de 35 cm), caracterizada por sedimento escuro (terra preta) e muito arenoso, o que facilita a sua destruição.
Com 60% de área preservada, o sítio Domingos possui 400x300 metros de extensão, de onde já foram retiradas várias lâminas de machado de pedra polida, pingentes e contas de pedra, além de três estruturas de combustão, formadas por carvão e argila queimadas, dois almofarizes (pilões) e oito urnas funerárias. Três delas trazem evidências de enterramento de crianças, tendo sido conservado partes dos dentes. Os vestígios indicam que os enterramentos eram realizados quase sempre com oferendas, como pequenos machados de pedra e vasilhames que eram colocados dentro ou ao lado das urnas.
O sítio apresenta várias manchas de terra preta, que revelam a ocupação humana, intercaladas por manchas de terra mais clara – acinzentada, onde foi encontrada uma seqüência de quatro urnas funerárias. A maioria das urnas e vasos cerâmicos não apresenta decoração. Àqueles com decoração são representados, principalmente, pela pintura vermelha e pelo corrugado, um tipo de decoração caracterizada por corrugações (enrugações) produzidas com os dedos.
As principais áreas de atividades do sítio Domingos estão sendo identificadas por um trabalho interdisciplinar, que envolveu estudos de geofísica, botânica, paleobotânica, palinologia, pedologia e bioarqueologia, esta última por causa dos enterramentos encontrados no local. "Por meio da análise do conjunto total de informações sobre os vestígios materiais coletados, tentaremos identificar as áreas de atividades do sítio Domingos", revela Edithe.
O estudo traz importantes contribuições para a pesquisa arqueológica na Amazônia, pois não há muita informação sobre a tradição ceramista Tupiguarani nesta região. "Os resultados dessa pesquisa certamente servirão de referência para o estudo de outros sítios da região", afirma a pesquisadora.
Educação Patrimonial Associado ao Programa de Arqueologia Preventiva, o Museu Goeldi também desenvolve na região o projeto "Educação Patrimonial na Serra do Sossego", que foi diplomado este mês como um dos finalistas da categoria Tecnologia Sociocultural pelo Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura (Minc). É o segundo prêmio nacional do projeto de Educação Patrimonial em Canaã dos Carajás, que também teve seu mérito reconhecido pela Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) ano passado. "É um grande programa, que tem a pesquisa e a educação caminhando juntas para repassar à comunidade o conhecimento sobre o patrimônio arqueológico local", afirma Edithe.
O projeto de Educação Patrimonial incluiu pesquisa sociocultural, oficinas de artes, organização de exposições, visitas ao sítio arqueológico e a Reserva Técnica da Arqueologia do Goeldi, a produção de livro, cartilhas, vídeo e documentação fotográfica. Como característica dos municípios do sudeste do Pará, os educadores do Museu Goeldi trabalharam com uma população migrante de outros estados brasileiros.
Um importante resultado do trabalho foi a formação de grupos de artesãos que valorizam, na confecção de seus produtos, as formas e os grafismos da cerâmica arqueológica local. "É um artesanato com características próprias, mas com inspiração arqueológica", explica Edithe.
A experiência da educação patrimonial do Goeldi também obteve reconhecimento social das comunidades envolvidas e de municípios próximos. Esta semana a direção do Emílio Goeldi recebeu um abaixo-assinado de 170 comunitários de Canaã dos Carajás, reunidos em cooperativa de artesãos formada como resultado das ações de Educação Patrimonial, pedindo que o projeto não paralise suas atividades.
O documento também foi encaminhado à Prefeitura, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Vale do Rio Doce (patrocinadora do programa e do projeto), que até agora não manifestou sua concordância com a continuidade das ações. Artesãos do município vizinho de Parauapebas também solicitam ao Museu Goeldi que estenda suas ações até aquele município. "As pessoas não querem que o projeto termine, pois elas ainda precisam de apoio para consolidar o artesanato que estão produzindo e a cooperativa que estão montando", afirma Edithe.
História A pesquisa arqueológica em Canaã dos Carajás foi desenvolvida inicialmente a partir de um convênio firmado pela Mineração Serra do Sossego (MSS), Museu Goeldi e Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp), visando o cumprimento da legislação vigente no que se refere à obtenção de licenças ambientais para a implementação do projeto de exploração de cobre.
Com vistas ao cumprimento da Portaria 230, do Iphan, de 17 de dezembro de 2002, que prevê a realização de um programa de educação patrimonial nas áreas de preservação arqueológicas, a MSS celebrou, em 2002, uma nova parceria com o Museu Goeldi para a execução do Projeto de Educação Patrimonial na Serra do Sossego.
Com a incorporação da MSS pela CVRD, foi firmado, em 2004, um novo convênio entre o MPEG, a CVRD e a Sociedade Zeladora do Museu Goeldi com objetivo de dar continuidade ao salvamento do sítio arqueológico Domingos.
O trabalho de prospecção e de salvamento dos sítios arqueológicos identificados na área do Sossego foi autorizado pelo Instituto do Iphan, através das Portarias nº 115, de 26 de outubro de 2001; nº 205, de 5 de novembro de 2002; nº 187, e de 3 de outubro de 2003; nº 249, de 7 de outubro de 2004; e nº 339, de 13 de dezembro de 2005.
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