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Nova espécie - 31/01/2007 - 15:00
Interior do Piauí tem maior biodiversidade do Nordeste
Teresina (PI). As serras e chapadas do Sul e Sudeste piauiense podem abrigar a maior biodiversidade do interior nordestino. A hipótese é dos cientistas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, que acabam de divulgar a descrição de duas novas espécies de lagartos - um deles encontrado no Parque Nacional da Serra das Confusões. Municípios como São Raimundo Nonato, Coronel José Dias, Caracol, Guaribas, Morro Cabeça no Tempo, Curimatá, Bom Jesus e Redenção do Gurguéia, apesar de serem conhecidos pelas constantes secas que atingem seus territórios, podem se tornar, em breve, prioritários para conservação da biodiversidade brasileira.

Os cientistas liderados pela equipe do pesquisador Hussam Zaher desconfiam que no passado a América do Sul tinha um tipo de vegetação que hoje é conhecida entre os biólogos como Carrasco, ou como chama o professor de Botânica da Universidade Federal do Ceará, Afrânio Fernandes, de: “A mata do Piauí”. São áreas no alto de chapadas, cobertas por uma mistura de floresta seca e relativamente densa com uma savana mais aberta - quase uma mescla de Cerrado e Caatinga.

Em alguns lugares pode ter havido contato entre essa vegetação e a floresta tropical, em especial a Mata Atlântica. “É exatamente o que parece ter acontecido na Serra Vermelha, uma região de alta biodiversidade com uma floresta ainda desconhecida pela ciência”, explica o biólogo e presidente da Fundação Rio Parnaíba, Francisco Soares. Para os pesquisadores, o Carrasco pode ser o remanescente de um domínio anterior aos atuais, modificado por processos naturais, climáticos e geológicos.

“As áreas de Carrasco guardam informações biológicas antigas e únicas. Não se sabe quais as origens deste tipo de ambiente já bastante impactado”, alerta Cristiano Nogueira, analista de biodiversidade da Conservação Internacional, uma das maiores ONGs cientificas do mundo. Segundo ele, a destruição da vegetação ressalta o risco que as novas espécies correm no exato momento em que “nascem” para a ciência: como todo o resto do Cerrado e da Caatinga, o Carrasco sofre com o desmatamento, que alimenta as carvoarias e o avanço da fronteira agrícola.

Hoje, o que resta de Carrasco no território brasileiro parece estar restrito ao Piauí e pequenas porções da Bahia. Em áreas preservadas como nos parques nacionas da Serra da Capivara e Serra das Confusões, o Carrasco sempre intrigou os pesquisadores que não conseguiam definir claramente que ambiente era aquele. Com elementos da fauna e flora da Caatinga e do Cerrado, essas áreas apresentam alta biodiversidade, com espécies ainda desconhecidas pela ciência.

Chamado de “Dragão do Piauí, o lagarto Stenocercus squarrosus foi encontrado na Serra das Confusões e descrito pelos cientistas brasileiros que acabam de publicar a notícia na revista americana “South American Journal of Herpetology”.

Talvez a última grande área de Carrasco selvagem, sem a interferência humana, seja pela criação do gado, agricultura ou desmatamento e queimadas, pode estar nas chapadas da Serra Vermelha, uma grande área entre os municípios de Curimatá, Redenção do Gurguéia e Morro Cabeça no Tempo.

Além de servir como uma espécie de colchão que absorve a água da chuva e alimenta as nascentes de diversos rios e riachos da bacia do Gurguéia, a floresta da Serra Vermelha é totalmente desconhecida pelos cientistas. Para o biólogo da USP, Luís Fábio da Silveira, que faz parte da equipe de Hussam Zaher, e esteve recentemente na Serra Vermelha, “o lugar tem espécies animais ainda não conhecidas pelo homem, principalmente serpentes, anfibios e lagartos”.

Dessa forma, todas as atenções das entidades ambientalistas e dos órgãos governamentais, seja na esfera municipal, estadual e federal, deveriam estar voltadas para proteção e incentivo às pesquisas na região. “Principalmente em lugares como a Serra Vermelha, que agora se vê ameaçada por um enorme desmatamento camuflado de Plano de Manejo Sustentável”, alerta Francisco Soares.

Ele se refere ao projeto Energia Verde, aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente e incentivado pelo Governo do Estado do Piauí. O empreendimento pretende, em 13 anos, transformar 78 mil hectares de floresta de Carrasco em mais de 4 bilhões de toneladas de carvão para abastecer as indústrias siderúrgicas do Brasil e do exterior. “Sem dúvidas, uma grande ameaça para preservação desse ambiente único”, finalizou o biólogo.



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