Embora já tenham provocado sequelas irreversíveis em escala planetária e ameacem seriamente o Brasil, inclusive economicamente, as mudanças climáticas causadas pela ação humana são apontadas pelo engenheiro Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCT), como uma oportunidade para o Brasil oferecer um modelo de desenvolvimento inédito à economia mundial. Primeiro brasileiro a conquistar um Nobel da Paz, Carlos Nobre é doutor em meteorologia e, em 2007 foi agraciado por seu trabalho na área ambiental. "As mudanças climáticas são um grande desafio e oferecem uma oportunidade única ao Brasil, que pode tornar-se o primeiro país tropical desenvolvido, se reagir rapidamente diante das escolhas que têm causado mudanças climáticas", avalia.
Para quem vê com ceticismo a relação causal entre industrialização desenfreada e aquecimento global, o cientista responde com números. "Todas as concentrações atmosféricas dos gases de efeito estufa vêm aumentando, tornando o aquecimento futuro inequívoco", disse. Nobre explica que em comparação com as variações dos últimos dez mil anos, o aumento das concentrações desses gases desde a revolução industrial é atípico. "Desde 1750, as concentrações de gás carbônico aumentaram 35%, de óxido nitroso subiram 18% e de metano chegaram a 148%", indica, lançando mão de dados da Organização Meteorológica Mundial.
Desafio
Nobre explica que para estabilizar a emissão desses gases em 2050, deve-se reduzir as emissões de CO2 em aproximadamente 60% a 70% em relação ao que se emite agora. "Ainda assim, já não há como frear alguns processos. A extinção de espécies é inevitável e já está acontecendo", avisa. Na palestra que proferiu nessa terça-feira (15), na Unicamp, e que fez parte da programação da 60ª reunião da SBPC, Nobre mostrou-se preocupado com o impacto do aquecimento global no Brasil.
Além das mudanças dramáticas percebidas no mundo inteiro e na irreversibilidade de alguns estragos ambientais – como o derretimento das geleiras e a extinção certeira dos ursos polares por volta de 2050 – o pesquisador indica conseqüências graves para o Brasil. Impactos severos nos recursos hídricos do Nordeste, desertificação da região semi-árida, destruição da biodiversidade do Cerrado e "savanização" da Amazônia são algumas tendências apontadas pelo cientista e que podem ser esperadas até o final desse século, conforme o atual modelo de desenvolvimento. Na economia, o maior impacto relativo ao aumento de temperatura poderá ser para a soja, com redução de até 60% na área potencial de plantio. Carlos Nobre lembra ainda que as mudanças climáticas globais afetam os mais pobres e o Brasil é vulnerável a elas. "As mudanças climáticas vão aumentar ainda mais as desigualdades e o aumento de preços dos alimentos é um dos sintomas disso", observou.
Se o Brasil é um dos países que mais podem sofrer com efeitos econômicos e sociais do aquecimento global, pode também ganhar destaque se apostar em soluções baseadas em desenvolvimento sustentável, na opinião do cientista. "Temos a vantagem de não precisarmos promover o desmatamento ou nos apoiarmos em combustíveis fósseis para continuar crescendo. Com a nossa capacidade de prosperar com recursos renováveis podemos oferecer ao mundo um modelo inédito de desenvolvimento sustentável e o Brasil pode tornar-se o primeiro país tropical desenvolvido de fato". O que a ciência brasileira pode fazer, conclui Carlos Nobre, é continuar oferecendo soluções para escolhas políticas que privilegiam os recursos renováveis.