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60ª Reunião da SBPC - 15/07/2008 - 15:47
Pesquisador do Inpe destaca papel pioneiro do Brasil na resposta às mudanças climáticas
Para Carlos Nobre as mudanças climáticas são um grande desafio, mas oferecem uma oportunidade única ao Brasil
Para Carlos Nobre as mudanças climáticas são um grande desafio, mas oferecem uma oportunidade única ao Brasil
Foto: Gustavo Tilio - Ascom/SBPC

Embora já tenham provocado sequelas irreversíveis em escala planetária e ameacem seriamente o Brasil, inclusive economicamente, as mudanças climáticas causadas pela ação humana são apontadas pelo engenheiro Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCT), como uma oportunidade para o Brasil oferecer um modelo de desenvolvimento inédito à economia mundial. Primeiro brasileiro a conquistar um Nobel da Paz, Carlos Nobre é doutor em meteorologia e, em 2007 foi agraciado por seu trabalho na área ambiental. "As mudanças climáticas são um grande desafio e oferecem uma oportunidade única ao Brasil, que pode tornar-se o primeiro país tropical desenvolvido, se reagir rapidamente diante das escolhas que têm causado mudanças climáticas", avalia.

Para quem vê com ceticismo a relação causal entre industrialização desenfreada e aquecimento global, o cientista responde com números. "Todas as concentrações atmosféricas dos gases de efeito estufa vêm aumentando, tornando o aquecimento futuro inequívoco", disse. Nobre explica que em comparação com as variações dos últimos dez mil anos, o aumento das concentrações desses gases desde a revolução industrial é atípico. "Desde 1750, as concentrações de gás carbônico aumentaram 35%, de óxido nitroso subiram 18% e de metano chegaram a 148%", indica, lançando mão de dados da Organização Meteorológica Mundial.

Desafio

Nobre explica que para estabilizar a emissão desses gases em 2050, deve-se reduzir as emissões de CO2 em aproximadamente 60% a 70% em relação ao que se emite agora. "Ainda assim, já não há como frear alguns processos. A extinção de espécies é inevitável e já está acontecendo", avisa. Na palestra que proferiu nessa terça-feira (15), na Unicamp, e que fez parte da programação da 60ª reunião da SBPC, Nobre mostrou-se preocupado com o impacto do aquecimento global no Brasil.

Além das mudanças dramáticas percebidas no mundo inteiro e na irreversibilidade de alguns estragos ambientais – como o derretimento das geleiras e a extinção certeira dos ursos polares por volta de 2050 – o pesquisador indica conseqüências graves para o Brasil. Impactos severos nos recursos hídricos do Nordeste, desertificação da região semi-árida, destruição da biodiversidade do Cerrado e "savanização" da Amazônia são algumas tendências apontadas pelo cientista e que podem ser esperadas até o final desse século, conforme o atual modelo de desenvolvimento. Na economia, o maior impacto relativo ao aumento de temperatura poderá ser para a soja, com redução de até 60% na área potencial de plantio. Carlos Nobre lembra ainda que as mudanças climáticas globais afetam os mais pobres e o Brasil é vulnerável a elas. "As mudanças climáticas vão aumentar ainda mais as desigualdades e o aumento de preços dos alimentos é um dos sintomas disso", observou.

Se o Brasil é um dos países que mais podem sofrer com efeitos econômicos e sociais do aquecimento global, pode também ganhar destaque se apostar em soluções baseadas em desenvolvimento sustentável, na opinião do cientista. "Temos a vantagem de não precisarmos promover o desmatamento ou nos apoiarmos em combustíveis fósseis para continuar crescendo. Com a nossa capacidade de prosperar com recursos renováveis podemos oferecer ao mundo um modelo inédito de desenvolvimento sustentável e o Brasil pode tornar-se o primeiro país tropical desenvolvido de fato". O que a ciência brasileira pode fazer, conclui Carlos Nobre, é continuar oferecendo soluções para escolhas políticas que privilegiam os recursos renováveis.


Débora Pinheiro - Assessoria de Comunicação do MCT
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